Atualmente temos a presença de Exu e seus congêneres, Lebá, Aluvaia, entre outras nomenclaturas, nas diversas nações de candomblé do Brasil. Mas a resultante desse encontro é um personagem original, mais próximo da pessoa humana. Exu ficou entre Deus e o Diabo na Terra de Santa Cruz, personificando o que de mais humano há entre esses personagens do cristianismo. Entender Exu é entender a tríade Deus, Diabo e humano. Nada mais humano, à semelhança de Deus e, com certeza, do Diabo, que o personagem Exu.
Objeto de disputas interpretativas, aceitações e negações, Exu é o elo que une a diversidade religiosa no campo afro-brasileiro. Seu poder advém do deus africano, mensageiro dos orixás, mas também, e de forma significativa, da atribuição demoníaca que a ele foi dada. A princípio, como uma forma de etnocentrismo e, por consequência, de desqualificação do outro, os europeus identificaram Exu com o Diabo cristão. Essa identificação trouxe como herança a força que o Diabo possuía na cultura judaico-cristã europeia. O Deus caído, mas detentor de um importante papel e poder no panteão judeu-cristão. Nas umbandas, que têm por tradição sacralizar os grupos marginais brasileiros, Exu se transformou no mais poderoso deus desse panteão. Ser o espelho das pessoas humanas, frase utilizada para explicar esse personagem em muitas casas religiosas, simboliza bem a humanidade dele.
Foi sobre essa temática que o jovem intelectual Léo Carrer Nogueira se debruçou. Entrou no xirê (roda dos orixás) da cultura brasileira e bailou por uma longa noite buscando o ritmo do tempo ou das diversas temporalidades que confeccionam esse Exu brasileiro. De muitas faces, antropofágico, temido e amado, odiado e querido; um ser plural. Da África, o autor cruzou a passarela atlântica inserindo novos personagens a essa dança. Ao desembarcar nos palcos americanos, o regente Léo Carrer já trazia em sua narrativa, como parceiro de dança, o europeu. Ao som do maracá, bailou com a pajelança indígena. Entre aproximações e afastamentos, esta obra narra diversas possibilidades de explicar muito além do Exu, ou das diversas cabeças dessa medusa dos trópicos. Em suas entrelinhas, ela fala do ser brasileiro. Com um senso refinado de abordagem histórica, “sem perder a ternura jamais”, o jovem maestro convida diversas temporalidades e localidades, interpretações e crenças para que juntas, como nu a orquestra, possam tentar explicar essa sinfonia/ cultura que é a absurda potência de Exu no imaginário brasileiro.
Convido todos a se unirem ao autor e se dirigirem ao salão para saborear essa análise recheada de notas afinadas com o mais puro diálogo acadêmico, mas sem perder o passo nem o compasso da batida dos tambores. Laroyê Exu! Salve o Povo da Rua! (Texto escrito por Mario Teixeira de Sá Júnior ).

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