terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Os Intelectuais da Umbanda: História da Legitimação de uma Religião Afro-Brasileira

A história da religião umbandista no Brasil envolve um longo processo de busca por legitimação. Nascida nos morros cariocas no início do século XX, a partir das diversas influências culturais europeias, africanas e indígenas, ela se desenvolve de forma rizomática e híbrida. Desde suas primeiras origens, esteve envolvida em um campo de disputas simbólicas e narrativas sobre sua constituição. Diversos intelectuais umbandistas, pais e mães-de-santo, jornalistas ou curiosos buscaram deixar registrado em jornais e livros da época suas definições sobre a religião, a partir de suas vivências e estudos, utilizando influências diversas, como o espiritismo, a teosofia, a apometria e até o ocultismo.
Nasce destes escritos uma infinidade de “umbandas” distintas, às vezes contraditórias entre si, mas todas com o mesmo objetivo: tornar esta religião aceitável socialmente.

É sobre estas umbandas, moldadas em obras diversas ao longo do século XX, que se trata esse livro. Em um trabalho minucioso, utilizando como metodologia a análise de discurso de Michel Foucault, o pesquisador e professor Léo Carrer Nogueira se dedicou a catalogar grande parte das obras dos intelectuais umbandistas lançadas desde 1933 até os anos 2000, identificando as principais características e formas discursivas utilizadas para explicar a Umbanda, assim como sua história de formação, desde os primeiros calundus até a constituição da religião no século XX. Ao final, trata-se de uma obra que procura reatualizar as pesquisas sobre a história das religiões afro-brasileiras, contribuindo para desmistificar e explicar esse imenso mosaico chamado Umbanda.

Da África para o Brasil, de Orixá a Egum: as ressignificações de Exu na literatura umbandista

Exu é o personagem mais popular das religiões afro-brasileiras. Originário da cultura iorubana, o orixá, o Espírito da Natureza, foi ganhando contornos camaleônicos por esses brasis afora. Ao roçar o caudal de culturas (ameríndias, africanas e europeias) que se encontraram na “Terra de Santa Cruz”, essa potente força da natureza foi passando por metamorfoses dentro do culto aos orixás até se tornar uma entidade eminentemente brasileira. 

Atualmente temos a presença de Exu e seus congêneres, Lebá, Aluvaia, entre outras nomenclaturas, nas diversas nações de candomblé do Brasil. Mas a resultante desse encontro é um personagem original, mais próximo da pessoa humana. Exu ficou entre Deus e o Diabo na Terra de Santa Cruz, personificando o que de mais humano há entre esses personagens do cristianismo. Entender Exu é entender a tríade Deus, Diabo e humano. Nada mais humano, à semelhança de Deus e, com certeza, do Diabo, que o personagem Exu. 

Objeto de disputas interpretativas, aceitações e negações, Exu é o elo que une a diversidade religiosa no campo afro-brasileiro. Seu poder advém do deus africano, mensageiro dos orixás, mas também, e de forma significativa, da atribuição demoníaca que a ele foi dada. A princípio, como uma forma de etnocentrismo e, por consequência, de desqualificação do outro, os europeus identificaram Exu com o Diabo cristão. Essa identificação trouxe como herança a força que o Diabo possuía na cultura judaico-cristã europeia. O Deus caído, mas detentor de um importante papel e poder no panteão judeu-cristão. Nas umbandas, que têm por tradição sacralizar os grupos marginais brasileiros, Exu se transformou no mais poderoso deus desse panteão. Ser o espelho das pessoas humanas, frase utilizada para explicar esse personagem em muitas casas religiosas, simboliza bem a humanidade dele. 

Foi sobre essa temática que o jovem intelectual Léo Carrer Nogueira  se debruçou. Entrou no xirê (roda dos orixás) da cultura brasileira e bailou por uma longa noite buscando o ritmo do tempo ou das diversas temporalidades que confeccionam esse Exu brasileiro. De muitas faces, antropofágico, temido e amado, odiado e querido; um ser plural. Da África, o autor cruzou a passarela atlântica inserindo novos personagens a essa dança. Ao desembarcar nos palcos americanos, o regente Léo Carrer já trazia em sua narrativa, como parceiro de dança, o europeu. Ao som do maracá, bailou com a pajelança indígena. Entre aproximações e afastamentos, esta obra narra diversas possibilidades de explicar muito além do Exu, ou das diversas cabeças dessa medusa dos trópicos. Em suas entrelinhas, ela fala do ser brasileiro. Com um senso refinado de abordagem histórica, “sem perder a ternura jamais”, o jovem maestro convida diversas temporalidades e localidades, interpretações e crenças para que juntas, como nu a orquestra, possam tentar explicar essa sinfonia/ cultura que é a absurda potência de Exu no imaginário brasileiro. 

Convido todos a se unirem ao autor e se dirigirem ao salão para saborear essa análise recheada de notas afinadas com o mais puro diálogo acadêmico, mas sem perder o passo nem o compasso da batida dos tambores. Laroyê Exu! Salve o Povo da Rua! (Texto escrito por Mario Teixeira de Sá Júnior ).  

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As religiões afro-brasileiras no Sul e Sudoeste de Goiás: os diversos aspectos da presença dessas religiões na sociedade e na cultura

As religiões afro-brasileiras constituem um campo notável de pesquisas acadêmicas, não apenas pela infinidade de particularidades de cada uma das suas manifestações em Centros, Terreiros, Tendas e Templos espalhados por todas as cidades do país, mas sobretudo pela riqueza e diversidade de experiências de Pais e Mães de Santo em suas trajetórias de vida e aprendizado sobre os fundamentos espirituais e as práticas rituais que marcam essas religiões. A essas experiências de realização de seu sacerdócio, somam-se ainda os inúmeros desafios cotidianos desses homens e mulheres no enfrentamento do preconceito e da intolerância que aflige o dia a dia de suas Casas.  

Mirando essa diversidade de manifestações e essa riqueza de experiências, os pesquisadores do Grupo de Pesquisa sobre as Religiões Afro-brasileiras do Programa de Mestrado em História (PPGHIS), da Universidade Estadual de Goiás, Câmpus Morrinhos, tem desenvolvido parte de suas pesquisas, análises e reflexões, enfocando a presença dessas religiões nas regiões Sul e Sudoeste de Goiás e desvendando um universo extremamente rico de expressões religiosas e culturais, que é subdimensionado e invisibilizado pelas  pesquisas realizadas aos moldes do Censo do IBGE, que indicam um número ínfimo de praticantes e participantes dessas religiões nas cidades abordadas pelas pesquisas. 

Neste livro são apresentados alguns resultados desses estudos, que confirmam a diversidade e apontam para uma participação muito ampla dessas religiões no campo religioso dessas localidades, mostrando que há muito maior número de Casas, de adeptos e de frequentadores do que as estatísticas indicam, e que as religiões afro- -brasileiras enfrentam a intolerância e o preconceito, se organizando, se manifestando publicamente e reivindicando seu espaço na sociedade com a liberdade e os direitos que são garantidos pelas leis.  

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Ensino e pesquisa em história e cultura afro-brasileira e africana

No ano passado a Lei 10.639/03 completou duas décadas desde sua implementação. Portanto, não há momento mais oportuno do que este para que façamos um balanço, o que passa por reconhecer aquilo que conquistamos nos últimos tempos e identificar o que ainda precisamos construir nos próximos anos. Em 2013, momento em que a lei completou sua primeira década, pesquisadores e pesquisadoras assumiram compromisso semelhante.

Neste importante momento histórico, pós aniversário de vinte anos da lei 10.639/03, apresentamos a presente coletânea, que está composta por textos de pesquisadores e pesquisadoras que têm se dedicado a pensar temas da história e da cultura afro-brasileira a partir de Goiás e do Distrito Federal. Trata-se de uma forma de não apenas divulgar o que tem sido produzido nos diferentes espaços de pesquisa situados nas mencionadas unidades federativas, como também uma forma de marcar lugar no mapa de produções relativas às temáticas que tangenciam a lei.

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Novas formas de expressão da Umbanda na modernidade: a teoria do rizoma umbandista

Capítulo de Livro

A umbanda é uma das principais religiões afro-brasileiras surgidas em nosso país. Resultado das práticas religiosas de africanos que foram trazidos para o Brasil ao longo dos últimos séculos, somente no século XX ela se organiza como religião institucionalizada, ainda que sem um corpo doutrinário e ritualístico unificado. Aliás, esta será uma das principais características desta religião: sua diversidade e dinamicidade.  

Ao observarmos as práticas umbandistas na modernidade, no entanto, percebemos que os modelos existentes não se encaixam mais apenas no continuum entre kardecismo e umbanda proposto por Camargo (1961). O que temos percebido é que hoje a umbanda se constitui em uma infinidade de práticas diferentes, com influências que vão além do kardecismo, superando, portanto, este continuum. Por isto propomos neste artigo uma revisão deste conceito explicativo, assim como sugerimos sua ampliação para um conceito que achamos mais adequado para a realidade desta religião hoje: a teoria do rizoma umbandista.  

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A hierarquização religiosa no espaço urbano: o caso das religiões afro-brasileiras em Goiás

Capítulo de Livro

Os conflitos entre religiões cristãs e outras denominações religiosas tem sido uma constante ao longo da história da humanidade. Eles marcaram profundamente a história das inúmeras religiões Afro-Brasileiras que se desenvolveram no Brasil a partir dos contatos entre as práticas religiosas dos africanos escravizados, gruposindígenas e do catolicismo português. Com efeito, tais conflitos continuam a tomar corpo e forma no discurso de algumas denominações pentecostais e neopentecostais.

Ao observar as relações entre estas religiões hoje, percebe-se que a relação hierárquica que permeou sua história se mantém na configuração espacial que elas adotam no meio urbano. A ocupação do território por parte dos templos religiosos acontece de acordo com a aceitação social que determinada prática religiosa tem mediante a sociedade e através de uma negociação entre as diferentes religiões.    

África e Religiões Afro-Brasileiras: dinâmicas e perspectivas (séculos XVIII-XXI)

África e Brasil estão intrinsecamente ligados desde fins do século XVI, quando o tráfico transatlântico de escravizados foi impulsionado. Durante os quase três séculos que se seguiram de escravidão foram traficados cerca de 4,5 milhões de africanos para o Brasil. As procedências africanas dos atingidos por essa trágica diáspora forçada eram as -mais diversas, ainda que, em uma visão de conjunto, sobressaiam os centro-africanos. Angolas, congos, benguelas, dentre outros, ao contrário do que outrora sugeriram pioneiros dos estudos das religiões afro- -brasileiras (CARNEIRO, 1981[1937]), ajudaram a formar não apenas a língua e o folclore brasileiros, mas também nosso modo de vivenciar a religião. Quem negaria o papel decisivo desempenhado pelas religiosidades banto na formação das macumbas cariocas? Quem recusaria a ocorrência de uma africanização de objetos de culto – como rosários e bentinhos – do chamado catolicismo popular brasileiro? 

Este processo de africanização religiosa ocorrido em solo brasileiro adentrou o século XIX, dando origem a novas religiões, agora afro-brasileiras, com a estruturação dos candomblés, tambores de mina, macumbas, umbandas etc. Desde 1820, quando encontramos os primeiros registros da palavra Candomblé nas matas e arredores da cidade baiana de Salvador (PARÉS, 2007), o processo de organização ritualística dos terreiros tem marcado a história das religiosidades brasileiras.  Processo este marcado por continuidades e rupturas com as
práticas esparsas e fragmentadas dos calundus coloniais.

O presente livro contribui com esse amplo escopo temático, que abrange religiões africanas e afro-brasileiras do século XVIII até hoje.

A umbanda na cidade de Goiânia: antecedentes históricos e atualidade

Capítulo de Livro

A Umbanda tem seu momento de expansão a partir da década de cinquenta, e com seu crescimento passamos a observá-la também em outras partes de nosso país. A cidade de Goiânia é uma delas. Com o crescimento da religião e da cidade, logo surgiu a necessidade por parte de seus adeptos de unificar o Movimento Umbandista, surgindo assim a Federação de Umbanda do Estado de Goiás, que só depois incorporou o Candomblé em seus quadros. Este texto tem como objetivo recontar um pouco dessa história.

Estabelecer as origens da religião em Goiânia não é tarefa fácil, principalmente devido à escassez de fontes. Porém, fizemos um esforço para identificar os grupos que fundaram os primeiros terreiros na Capital, poucos anos após sua fundação, até chegarmos ao surgimento da Federação de Umbanda, que depois de surgida tentaria exercer o controle e a unificação da religião umbandista em Goiás. Antes, porém, convém traçarmos um breve histórico da presença da religião espírita em Goiânia, já que a Umbanda e   Espiritismo sempre tiveram profundos laços de ligação, tanto doutrinárias quanto sociais.     

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